Crônicas

Amizade caça jeito

Alguém já se perguntou como ficam as nossas amizades depois dos 40? Sorry, mas não é a mesma coisa. As pessoas casam, separam, brigam por pensão, focam no trabalho (aliás, o que uma palavra tão feia quanto “focar” está fazendo aqui? Arre!). O tempo para ver os amigos encolhe.

Foi daí que me veio a frase que batizou esta crônica — “Amizade caça jeito”. Porque, se a vida aperta, a amizade dribla. Dá olé, como no futebol de rua da infância. É preciso inventar um jeito de continuar.

Dou um exemplo. Tenho um amigo, o Gustavo, especialista em rasgar o calendário. Já saímos para comer pizza numa segunda-feira à noite; brindamos com vinho numa quarta ao entardecer; madrugamos — pasme — às cinco e meia, só para viver a aventura de tomar café num lugar legal e rir depois da ousadia.

Conheci o Gustavo nos tempos da faculdade de Letras, na PUC Minas. De lá pra cá, nunca nos perdemos. Só que, como disse antes, os horários mudam. Aliás, tudo muda.

Mas a amizade caça jeito. Inventa brechas onde não parecia haver. Às vezes, em vez de um bar no fim de semana, a gente se encontra na fila do dentista, ou numa praça qualquer para um pastel. Pode ser seis da manhã, antes do trabalho. Pode ser na devolução de um livro na biblioteca. O lugar pouco importa — quem quer um amigo dá seus pulos.

Se o brasileiro não é especialista no jeitinho, eu não sei quem é. E, se é assim, com a amizade pode ser também.

Se você experimentar tomar, por exemplo, um café da manhã antes do trabalho, vai ver o que é começar o dia dando uma gargalhada. Se encontrar o amigo por vinte minutos para comer um pastel antes de entrar numa entrevista de emprego, vai perceber como a vida fica mais feliz e menos burocrática.

E se eu te disser, leitor, que já fui cortar cabelo e fazer a barba no mesmo horário que um amigo? Pois é. Depois de certa idade, a amizade depende de brechas — um encontro rápido, um pastel antes da entrevista, um café roubado da pressa. É preciso dar chance ao inusitado, ao surpreendente.

Se tem algo que sustenta a vida, é a amizade. Mais até do que namoro ou casamento, são os amigos que não nos deixam envelhecer sozinhos.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar